DiáriodeCannes #6: lá vem o Brasil subindo a ladeira com 'O Agente Secreto', de Kleber Mendonça Filho
Longa de época pernambucan estreia 'cheio de pirraça' na Croisette e ganha muitos elogios da crítica
As equipes e elencos dos longas que concorrem à Palma de Ouro tradicionalmente chegam de limousine ao Palais du Festival. É um ritual que faz parte do glamour das premières mundiais dos filmes — mesmo que as sessões não sejam de gala, onde todo mundo precisa ir vestido de festa. Com “O Agente Secreto” foi diferente. Kleber Mendonça Filho, Wagner Moura e a turma toda saíram do hotel a pé e marcharam ao som do frevo no meio de um bloco de carnaval, com direito a estandarte, dançarinos e passinhos animados do protagonista até chegar ao Grand Theatre Lumière, onde os filmes em competição são exibidos.
Essa charmosa quebra de protocolo, além de vender bem o representante brasileiro na mostra principal do festival, antecipa a atmosfera deste thriller político tropical sobre um período da história brasileira cheia de pirraça, como o letreiro inicial classifica. E já que o protocolo foi quebrado, eu furo a fila para escrever sobre o filme aqui.
#25) “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho — Competição
Uma das coisas mais fascinantes em “O Agente Secreto” é que o filme de Kleber Mendonça Filho não tem pressa. Sempre que pode, o diretor pausa a narrativa que está construindo para Marcelo, seu protagonista vivido por Wagner Moura, para dar atenção a um coadjuvante que pouco vai aparecer depois ou sacar do baú da memória causos sobre gatos com dois rostos, tubarões que comem perna, pernas que matam gente. É assim, desvendando pequenas histórias e compilando e ressignificando lendas locais que Kleber cria a base de sustentação de seu filme, reconstruindo o Recife de 50 anos atrás, seus contos e sua gente. Um lugar e um tempo para onde ele volta seguro para contar a saga de um homem em perigo.
Essa maneira de voltar no tempo personaliza “O Agente Secreto”, um thriller político de época que evita o classicismo ao equilibrar nostalgia e ironia, estabelecendo um ecossistema que atravessa o gênero e o enriquece. Da cena tarantinesca que abre o filme num posto de gasolina até a toda e qualquer aparição de Dona Sebastiana, Kleber Mendonça busca romper com o registro formal para falar do passado. Passado que sempre esteve presente em seu filmes: nos fantasmas do colonialismo de “O Som ao Redor”, em 2012; na introdução à protagonista ameaçada de “Aquarius”, em 2016; no novo cangaço de “Bacurau”, em 2019. Passado que, nesse novo filme, nunca esteve tão presente — em todos os sentidos.
O imenso e detalhado trabalho da direção de arte de Thales Junqueira e dos figurinos de Rita Azevedo estão no coração do longa, mas “O Agente Secreto” é um filme de época que não reconstitui só o período histórico que retrata, mas dialoga com outro bem recente, o de um novo flerte do Brasil com o autoritarismo. Essa capacidade de trafegar por tempos diferentes faz com que o filme transite também por gêneros diferentes, o thriller político, o filme de suspense, o drama familiar, o filme de memórias, num combo bastante equilibrado que revela aquela que talvez seja sua maior qualidade: Kleber Mendonça Filho partiu de um contexto e um retrato muito locais e fez um filme universal. E isso é bastante interessante se pensarmos que muitas das referências, expressões e sotaques que o longa traz podem simplesmente não ser lidos por todo mundo.
Nesse caso, a humanização de cada ponta desta história faz o trabalho duro: com personagens tão bem delineados, o espectador pode até perder algum detalhe, mas conhece aquelas pessoas: a senhora que esconde um trauma por trás de uma inesgotável energia; a mãe que cria a filha sozinha, mas não anula seu desejo; o avô que tem medo de ficar longe do neto, mas sabe o que é o melhor a fazer; o casal que não “pertence” e se fecha, até que se abre. Para isso, Kleber reuniu um elenco de apoio impecável que, em papéis pequenos, entregam personagens tão elaborados que mereciam spin-offs: Hermila Guedes; Isabél Zuaa e Licínio Januário; Roney Villela e Gabriel Leone; Carlos Francisco (e minha amiga Aline Marta); o furacão Alice Carvalho e o tsunami, a mulher a se bater esse ano, Tânia Maria, enxerida e encantadora como Dona Sebastiana.
A performance dessa mulher rouba todas as cenas onde está — está hilária e tem um dos textos mais densos de todo o filme. É pegando um bigu com a personagem de Tânia Mara — que fala mais do que a mulher da cobra, que é a vizinha fofoqueira e a mãe que abriga todo mundo, que não divide as coisas tristes porque só saber ser feliz — que, de certa forma, Kleber resume o “O Agente Secreto”, um filme em que política, denúncia, ação, violência, estão presentes, mas que traz o componente humano em primeiro lugar, sofisticando e trazendo densidade para tudo e reverberando mais do que uma brasilidade, uma nordestinidade que faz toda a diferença. Esse orgulho nordestino ocupa vários espaços, inclusive no recorte histórico: o longa se passa durante o Carnaval, então tanto o torpor quanto fluxo mágico da festa também estão muito presentes no filme.
Assim como em “Retratos Fantasmas”, documentário com quem “O Agente Secreto” conversa diretamente — num botequim no Recife Antigo ou na fila da reprise de “A Profecia” no São Luiz — esse é um projeto intensamente cinéfilo, onde o diretor cita alguns de seus filmes favoritos e nos convida para a cabine de projeção onde trabalha Seu Alexandre, papel de Carlos Francisco,
Com a cama feita, a ideia de Kleber para o personagem de Wagner Moura — o homem em trânsito, que foge de algo, até tem para onde ir, mas precisa saber como chegar lá — vira o porta-voz deste Recife que nunca deixa de ser o protagonista desta história. Sua interpretação sutil e intuitiva acomoda a discrição, a simpatia e a desconfiança de um personagem que são muitas coisas ao mesmo tempo. O baiano que faz um pernambucano constrói esse homem no olhar, na fala macia, nos pequenos gestos. É um dos maiores atores do Brasil e um dos maiores deste ano. Se a Dona Sebastiana de Tânia Maria nos informa que filme estamos assistindo, o Marcelo (ou quase isso) de Wagner Moura é o filme em si.
As contradições e dualidades de “O Agente Secreto” são o que transformam o filme numa experiência original e muito rica narrativamente. A escolha por um desfecho que rompe a cronologia, evita o clímax e tem menos ação do que o kafkiano e bem mais protocolar “Two Prosecutors”, de Sergey Loznitsa, talvez fruste o espectador mais apegado ao tradicional, mas esta opção — depois de todo o registro multifacetado de tempo, espaço, humano e contexto — cria uma última conexão com o Brasil dos anos de ditadura: um momento que obstrui o fim de uma história, impede conclusões e proíbe o “adeus”. O que pode ser mais intenso do que não poder se despedir?
“O Agente Secreto”, escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho, foi exibido no Festival de Cannes e estreia em breve no Brasil. O filme traz Wagner Moura como Marcelo, Carlos Francisco como Seu Alexandre, Robério Diógenes como Delegado Euclides, Tânia Maria como Dona Sebastiana, e mais Hermila Guedes, Isabel Zuáa, Licínio Januário, Roney Villela, Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Thomás Aquino, Alice Carvalho, Aline Marta e Udo Kier. Foi produzido por Emilie Lesclaux, montado por Matheus Farias e Eduardo Serrano, fotografado por Evgenia Alexandrova, tem direção de arte de Thales Junqueira, figurinos de Rita Azevedo, caracterização de Marisa Amenta e trilha sonora de Mateus Alves e Tomaz Alves de Souza.






Maravilhoso! Conhecer toda a obra do Kleber faz diferença. Depois do documentario, corri pra ver tudo dele e não vejo a hora dessa estreia. Que a cultura pernambucana seja conhecida por todo esse mundão!